Vênus

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A rocha metamórfica
de hálito calcário
desenhada a martelo
e estaca-geleira
nada vê.

Em seu dorso leva a túnica
E pela clavícula,
a moringa verde-mar.

Não lhe sobra o olhar
de deusa clemente
Muito menos os dedos quentes
E a ânsia de amamentar.

Em seu ausente sentir
personifica a malícia
de toda gárgula cinza
E mistifica em tempo
o sempre-invernar.

Na função de guardiã
não perdoa o ser impuro
que pelo jardim, não passará.

2

Mas passou uma menina
Pelos portões glaciais
a olhar os próprios seios,
Ainda escondidos

E estendendo as mãos
Tão pequeninas,
Tocou os seios frios
Da rígida escultura.

E a Vênus corou.

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O Cinema

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Todos aproveitam a Cidade Maravilhosa
Uns levantam cedo e patinam pela orla
Muitos vão depois do almoço
E são devotos do calor de São Verão
Esnobe e autoritário
Comendo uma fatia a mais da noite.
Crianças adoecem engolindo as areias
O protetor solar do Cristo está vencido
(E nos braços abertos o desodorante derreteu)
Aos gringos cai a ficha do poder do Sol
Em suas carapaças amantes da vermelhidão.
Toda cidade, uníssona
Parece aproveitar a mais clara das estações.

Faz calor lá fora, mas preferimos o cinema.

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A alegria do engano

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(foto de Luiza Saad)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O teu sabor agridoce me comoveu
Pois pensava que tinhas gosto de amargo
Quando a julgava sem conhecê-la
Pois atiravas em mim o olhar pelo canto dos cílios
E me fazia crer que era mais uma das que perderam os olhos iluminados
Porque teus olhos eram algo como um olhar de ar superior
Mas a tua fé de açucena que fui desvendando me trouxe paz
E amei a mim mesmo em minha condição de ser errante que se engana
E quis errar por muitos outros olhares teus que me atravessavam
E passei a ser constituído de fracassos
Pois esperava sempre o dolo das atitudes tuas
Mas errava sempre a verdadeira intenção das tuas pupilas
Com um dilatar impressionante e um alargar estupefato vespertino e assustado
E passei a errar nos poemas de amor sobre ti
Porque os iniciava e trabalhava em versos toda tua mesquinhez e amargura e desprezo com o mundo e comigo
Mas logo me enganava pois os olhos teus me seduziam na mentira
E esta foi a primeira conclusão que tirei de tuas pálpebras
E tive por inúmeras vezes que apagar tudo e recomeçar
E caminhar de novo
E por todo falso descaso dos olhos teus muito me senti conhecedor de orquídeas
Felinos artrópodes moluscos e pteridófitas
Pois se concluía todo teu paladar acre que te moldava pelo simples mirar na córnea tua
Sentia-me rei de todo mundo e das ciências da natureza e de todo conhecimento
Mas em tuas aulas diárias sem prepotência ou desprezo me via como doutorando do nada na arte do não saber
E descobria que o sangue tem sabor de ferro e nem tudo que parecia estame era androceu, mas podia ser flor (ou algo parecido)
E com meus enganos de pré-julgamento fui te descobrindo e me equivocando
E constatei como primeira conquista que os olhos teus na realidade me olhavam com ternura
E que toda amargura imaginada era o melhor deleite de minha ignorância
E que na verdade me olhavas porque queria ser minha
E em todo fracasso que me sucedeu ao confundir teu olhar fui me tornando teu
E pude sentir o doce sabor de desventuras sucessivas
Que apesar de existirem a tudo tornaram uma grande aventura por tudo que te constitui
E todo paladar que me sobra já só sente teu gosto doce, o verdadeiro
E arquiteta a estátua do amargo fracasso que se perdeu, em respeito
E todo estar perdido por ti já me solidifica
E pelo doce fracasso de confundir-te já não mais me perdia, mas me encontrava
E já eras tão clara para mim como clareava o sol as manhãs
Que pude me perder em definitivo na íris de teu enigmático prisma!

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O Anoitecer

(foto de Luiza Saad)

No escombro perdido da noite eu te procurei
Não a achei por meus livros
Que criaram lodo e teias em seu repousar
Nem pelas páginas perdidas, poucas jovens
Outras umedecidas em pétalas.

Perdi seu cheiro pelo quarto
Procurei-o em minha cama
Na calcinha que deixara na minha gaveta
No seu caminhar rápido pelos ares do quarto
Que o atrito do vento consumiu.

Procurei-a pelos filmes que guardei
Mas não a reconheci, nem nos créditos
A brisa bebera toda sua fragrância
E seu gosto não estava mais na fronha de meu travesseiro
Nem micropartículas de suas pernas no meu lençol

Ao redor de todo som que descansava
E me escutava, não a ouvi
Mas tive certeza de seu murmurar distante
E de seu sorrir desnudo ao vento
Suspenso na paisagem.

Observei sua mocidade que me acenava
E ensaiava um leve adeus, pois já era tarde
E me dizia que ia deitar
Sem sono e sem remorso
E acordar na terceira idade…

Deixei-a ir e me pus a dormir
Quando seu espectro me acordara em luz
Passeando com os dedos por minha nuca
E cantarolava
“Ainda estou aqui”…

Abandonei os bruços e a possuí
Em todo incêndio da juventude
E com a testemunha da lua
Com teu corpo me fundi

E fomos juntos bater asas pela noite.

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Soneto da canção escondida

Canto a ti como canta o canário a ventania
E às coisas lindas uníssonas da vida.
Canto a ti versos de partida
Brancos e isentos de melancolia.

Minha canção a ti, modesta
Quer ser pluma de alvura distante
Já longe no próximo instante…
Preenchida e tímida, em festa!

Canto uma canção triste a ti…
Incrustada dentro de mim
Que, sem vergonha, quer sair!

Que tristeza e que alegria
Ter por dentro a ti, coisa tão linda
E a canção escondida… viva como a luz do dia!

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Ana Lucia

Ana Lucia trouxera um torcicolo da última noite, mas permanecia ereta em postura, de forma que a lordose crônica era quase imperceptível. Sabia que para Pietro a postura e a elegância de uma mulher eram muitas vezes mais importantes que o perfume no pescoço ou a constância dos cabelos longos. Sorria, tremendo os cantos dos lábios, e suava frio nas vilosidades do céu da boca, com ansiedade semelhante a dos pré-molares que esperam brocas do dentista na cadeira de consultório. Pietro a serviu um café e se aproximou sentando, apoiando suavemente as mãos em seus joelhos manchados, e já na hora presente Ana Lucia resgatava o vale perdido das lembranças de uma juventude esquecida no tempo. Aquele seria o primeiro beijo de sua vida, perante toda realidade sexual e alucinante de seus orgasmos de terça-feira e fins de semana que moldavam seu corpo parnasiano. Sentia a dor e o alívio da certeza de que o que mais almejava seria o próximo deleite metalinguístico do destino, que em sua meninice beijava os próprios braços de brisa. Pietro a fitava de forma culpada e até tímida, olhando muitas vezes para o piso frio e o rato de brinquedo de Horácio Amadeus, que se enroscava no descanso dramático do corpo homeotérmico e arriscava um sonhar de fim de noite. A sutileza do tornado memorial que devastava a moradia de suas mentes trazia uma tranquilidade similar em ambas, como a paz de um ninho de canários seco perante a tempestade. Pietro tivera de lidar com a candura exagerada da menina, tão mulher, leve e decidida, porém tão quebrável naquele instante. A pureza da iniciativa, sin embargo, se dera a partir da investida muscular da língua de Ana Lucia, que roubava marota e suavemente a mucosa labial arábica de Pietro. Passeava suavemente com os olhos semicerrados pelas remelas remanescentes da visão barroca de Pietro, e ensaiava mentalmente uma melodia tranquila, que cantarolava com murmúrios e lamúrias lamentosas cujo cerne era uma treva de felicidade. Ana Lucia o beijava loucamente, e com a mágoa do não-amor o abraçou, aceitando. Sabia que Pietro amava outra pessoa e educava seu coração no momento para isso. Sentiu-se comprimida, como se navegasse pelas próprias artérias espremidas, querendo abrir os braços, mas impossibilitada de liberdade.

Ana Lucia amaria Pietro em silêncio. Levaria seu beijo e alguns fragmentos do músculo esquelético de sua língua e a canção de sua história mundo afora, e caminharia com o alívio de ter-lhe contado tudo. Ana Lucia abriria Pietro em sua alegria toda vez que se alegrasse, e sorria. Beijava sua nuca e partia lentamente, passeando com os dedos por seu pescoço e dizendo adeus. O adeus a fazia amá-lo mais, mas lhe dava o amor próprio que tanto precisava, e a vontade de amar perduraria viva. Encontraria outro alguém. Ainda bem.

Puxou o trinco da porta e saiu, lentamente, contando os passos sem perder a marcação da própria vida.

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O Poço

Lembro-me do poço perto da casa de meu avô
Que trazia o cheiro incansável de terra molhada…
De pouco servia para o que havia sido feito;
Sabia bem das águas barrentas e pouco das límpidas.

Mas era de um talento incrível
Para servir de história:

Desde o negrinho que se afundou fugindo do pelourinho em 1873
À Lua que toda noite perguntava
“Espelho, espelho meu…”

E haveria astro mais belo?

Do poço nasceram metáforas
Saíram de seu fundo tantos dos meus amigos perdidos
Remando pelo húmus de suas águas

E da lembrança da sede nada ficou!

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Cavalo-marinho

Ao filho de Poseidon a reverência do oceano
Pois dele brotaram todas as conchas e arraias
Do parto que o castiga como a um humano
E das suas brânquias respiram todas as praias

Cortejaram suas façanhas os crustáceos e moluscos
Rugiram em respeito os ursos polares do Ártico
E do mar calmo soerguera todos os leitos bruscos
Da catástrofe fluida dos lençóis freáticos

Sem rédeas serenas moldara toda a vida aquática
O cavalo embaraçado e de alma mitológica
Tudo concebera à sua imagem e semelhança linfática
Mas no sangue democrático trouxera a liberdade biológica

Ser iluminado dono da luz dos recém-nascidos
Oriunda das contrações de seu útero masculino
E que concebera toda vida parida dos reinos perdidos

Saúdam-te os outros ventres femininos!

E mora em ti toda leveza equina
E todo existir alheio é pacífico
Pois da tua alegria uterina
Brotaram os maiores dos magníficos!

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História antiga

Eu tive uma dor muito grande quando fui ao parque e não a vi
Que quis jogar-me do mirante na ilusão do que perdi
Quando do alto senti o balançar de suas falanges e ombros distraídos

Ensaiando o adeus da sua aura funda e da carne zelosa
Por onde morreram células na linha de frente da sua fronte caprichosa
Enquanto a brisa alaranjada trazia na canção o desabrochar dos seus ouvidos

E eu pude cair no encanto barroco dos seus cílios pequeninos
Quando na alegria castanha de sua pupila vi meu reflexo vespertino
A sorrir na magoada penugem de um monarca esquecido

E já era tarde quando a perdi na vista constelada da geometria
Não mais a vi perante a esperada e evasiva imensidão de alforria
E pela claraboia de sua íris a vi fugindo, fugindo…

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ouro, incenso, mirra

Para Leticia Bittencourt

As lembranças logo se misturaram. A imagem dos corpos unidos em completude começou a tomar forma. As nuanças em cada rótula, a vasectomia, o pêssego em calda mal colocado antes do jantar, contudo, eram pontos visíveis. De uma colagem cubista de pequenos momentos incrustados a cabeça tomou conta do corpo e em uma neo-vanguarda de mim criei uma lembrança de três cabeças e seis testículos. Porém ao olhar o ser mitológico dentro de mim parecia um homem comum: apesar das três tíbias em cada perna, via somente um par de braços e pernas. Quando as via caminhar, notava que caminhavam as minhas pernas. Eram, então, quatro tíbias em essência, quatro cabeças e oito testículos, porém todos sobrepostos um no outro. Quando pensava me via torcendo para o América Football Club ao mesmo tempo que clamava por justiça e encontrava lazer consertando coisas, da bicicleta de quatro rodinhas ao computador 133 MhZ de monitor amarelado. E por sempre evocar a lembrança nasceram mais hemácias em meu corpo, talvez porque na imensidão de número dos glóbulos vermelhos tivessem alguns se confundindo em se adicionar a outros três corpos mas que já estavam com seus tecidos mortos, o que me assustou pois tive a sensação semelhante das mulheres que possuem gravidez psicológica. Mas das memórias remotas da saudade foram nascendo outras que trouxeram à tona outras sem esperança em sua rigidez parnasiana. Recitei Ismália em sala de aula e imaginei se em toda meninice não pularíamos da torre. Falei de Clara dos Anjos e da Arte de Amar em Ovídio e pensei se não teriam nunca usado as artimanhas romanas quando conquistaram as hoje senhoras mais velhas e uma nem tanto que também moram na selva escarlate do meu coração. Na mesa de jantar em pleno domingo me escondi como um menino e fui acariciar o fio do fax antigo que já não mais funciona, mas lembro que você simulava sentir dores no estômago quando contigo conversava no telefone e eu enrolava o fio. Curiosamente adorava puxar com força porque de alguma maneira sua dor dissimulada me renovava. Comi uma lata de pêssego em calda sozinho esse dia e perguntei a mim mesmo se você já tinha melhorado da hemorroida ou melhorado do cu falando mais carinhosamente, e me tomei perdido no teu abraço cálido e quente como poucos já vi que normalmente me recebia enquanto você deixava de lado o prato de fígado de frango preparado por sua esposa tão querida que por sinal é cozinheira de mão cheia e ainda faz das quituteiras das prosas pré-modernistas meras amadoras na arte da culinária. Perguntava também o que seriam das aulas de taekwondo na Tijuca e dos teus perônios adulterados. Vejo tua risada em cada escasso bolo de batata com carne moída que me atravessa o caminho e em cada pivete que joga video game fico na ânsia de pegar o player2 e sentar-me ao lado de toda tua arquitetura morena e inquieta e carinhosa de um metro e oitenta e nove centímetros e mexer tuas mãos como se fossem as minhas para que atire no lugar certo plante a hortaliça adequada ou chegue em primeiro na corrida. É apenas uma lástima que na tua incorporação à quimera de três corpos em um de minha lembrança não estava aqui para jogar contigo a última adedanha e apertar-te a mão em plena Ituverava e sentir seu pulso solto desgastando a cartilagem das mãos. Mas encontro contigo em cada aula de boxe e em cada pulo de disciplina e fico a pensar em tua fúria quando Aninha e Letícia namoravam e você queria mais era que os pobre coitados lustrassem a permissão concedida de porte de arma que você levava na cintura… Talvez você seja a cabeça mais livre da minha fantasia porque fico triste de você ter sido o primeiro a construí-la com toda sua ternura de pai da mamãe quando eu era mais filhotinho de leoa que qualquer coisa, mas pego todo o conforto da imaginação linda que te coloca o gene da calvície que me faz tomar Finasterida  e da miopia que me dispensou do serviço militar.

Tornei-me o índio doce antropofágico através da morte que chega em si exausta e fortaleci o menino de mim com os espíritos fortes dos que amei, que fazem de morada muitos corpos e cabeças. Toda saudade é o combustível do meu riso e da alegria que se desabrocha no meu rosto. Não há mágoas e dúvidas; estão todos ao meu lado em uma lembrança unificada, abrangendo todas as outras coisas lindas que elaboram minha seiva. Em todo seu paradoxo, cetro e trono, acolhi dentro de mim toda a vida que a morte de alguns que eu amo trouxe. Sou parte de cada amor que parte. E cada amor que parte é parte de mim. No quebra-cabeça uno de todos os laços abrangidos pelo mesmo amor somos todos infindos, todos presentes, todos para sempre. De uma canção de muito longe chega a névoa suspensa que traz o apelo do choro quando bate o frio, mas aqui não há tempo de se chorar: a partir de toda mitologia única de gostos, sobremesas e pratos favoritos e força de espírito renasce o mundo na manjedoura de cada entrelinha de costela. E a cada momento evoco a graça e o riso que se esqueceu de partir. E a cada momento que caminho o faço somado a pés que foram a terras que nunca fui, de Pernambuco aos recantos do Anil e Pilares, de carnavais de marchinhas obsoletas a namoradas que só tive o gosto de pegar nas mãos e outras que me casei e me perdi e pude fugir, e de toda vida que posso partilhar ao caminhar pelas terras marcadas nas pegadas dos meus pés, que manchadas na terra molhada na areia seca no asfalto aparentam mais profundas e ora mais largas ora mais curtas porque meus pés 42 indecisos optam às vezes por 44 ou quem sabe 39

Do alto três reis magos me parecem sorrir.

em memória de Wilson, Alexandre e João

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